O Super El Niño e o novo normal da gestão de eventos extremos

O Super El Niño e o novo normal da gestão de eventos extremos

Nas últimas semanas tenho acompanhado com bastante atenção as notícias sobre a intensificação do El Niño para 2026/2027. E não apenas pela dimensão que o fenômeno pode atingir, mas principalmente pela movimentação que já começa a provocar nas instituições.

A Organização Meteorológica Mundial (WMO) aponta que um El Niño forte está em desenvolvimento e deve continuar se intensificando nos próximos meses. Na atualização climática publicada em julho, o conjunto de modelos utilizado pela organização projetou, para o trimestre de agosto a outubro de 2026, anomalia média sazonal da temperatura da superfície do mar próxima de 2,9 °C, mantendo trajetória de intensificação com pico previsto para novembro (WMO, 2026).

Em Santa Catarina, a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil também vem acompanhando o cenário. Em junho, o órgão apontava 63% de probabilidade de caracterização de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com anomalias superiores a +2,0 °C. Caso essa projeção se confirme, o evento poderá estar entre os mais intensos observados desde 1950. A própria Defesa Civil observa que eventos dessa magnitude são popularmente chamados de “Super El Niño” (SANTA CATARINA, 2026a).

Tecnicamente, prefiro manter essa ressalva porque o termo chama atenção, mas não deve ser confundido com uma classificação isolada capaz de definir os impactos que teremos pela frente.

Aliás, esse é um ponto importante.

Um El Niño muito forte não significa automaticamente que teremos determinado volume de chuva, uma enchente em determinado município ou um deslizamento em determinada região. A própria Defesa Civil de Santa Catarina ressalta que a magnitude dos impactos não é determinada apenas pela intensidade do El Niño no oceano, mas também pela combinação das condições atmosféricas específicas de cada episódio e pela vulnerabilidade existente em cada região (SANTA CATARINA, 2026a).

É justamente aí que, para mim, começa a parte mais interessante dessa discussão.

Não é novidade que Santa Catarina convive com chuva intensa, inundações, enxurradas e movimentos de massa. Também não é novidade que o El Niño normalmente favorece maior frequência e volume de precipitações no Sul do Brasil e que, historicamente, seus principais impactos em Santa Catarina tendem a ser mais expressivos durante a primavera (SANTA CATARINA, 2026a).

O que começa a mudar é a maneira como estamos nos preparando para isso.

Antes mesmo dos impactos mais significativos esperados para os próximos meses, a Defesa Civil catarinense criou uma página específica para o fenômeno, reunindo informações técnicas, orientações de segurança, planos de preparação, notícias e acesso à rede estadual de proteção e defesa civil. Entre os documentos disponibilizados está o Plano de Contingência (Plancon), que reúne estratégias e protocolos de resposta a desastres (SANTA CATARINA, 2026b).

E tem um detalhe que considero ainda mais significativo: em maio de 2026, Santa Catarina declarou estado de alerta climático em razão das previsões associadas ao El Niño. O Decreto Estadual nº 1.530/2026 estabeleceu indicadores para eventual decretação de situação de emergência ou calamidade pública e instituiu medidas preparatórias de proteção e defesa civil no Estado (SANTA CATARINA, 2026b).

Pode parecer apenas organização institucional, mas vejo algo maior acontecendo aí.

Durante muito tempo trabalhamos com eventos extremos quase exclusivamente dentro de uma lógica de emergência. O evento acontecia, mobilizávamos equipes, executávamos ações emergenciais, recuperávamos os danos e, depois de algum tempo, a estrutura voltava para sua condição normal.

Só que essa fronteira entre o que é “operação normal” e o que é “operação de emergência” está ficando cada vez menos clara.

Quando existe uma previsão sazonal indicando aumento consistente do risco de determinados extremos climáticos, por exemplo, não precisamos saber hoje exatamente qual rio irá transbordar ou qual bairro será atingido para começar a trabalhar.

E acho que é aqui que existe uma mudança interessante.

Estamos aprendendo a trabalhar com a incerteza.

Durante muito tempo a lógica foi outra. Se não era possível afirmar quando, onde e com qual intensidade determinado evento ocorreria, havia uma tendência de aguardar informações mais concretas para então mobilizar estruturas de resposta.

Só que previsão climática não funciona assim. Ela trabalha com probabilidades, tendências e cenários. A própria WMO apresenta suas previsões sazonais dessa forma e destaca que essas informações fornecem uma janela para ações antecipadas e apoio à tomada de decisão (WMO, 2026).

E essas informações, mesmo sem nos dizer exatamente o que vai acontecer, já podem ser suficientes para orientar decisões.

Tenho visto cada vez mais esse movimento acontecer. Monitoramentos que começam meses antes, planos que são revisitados, estruturas de resposta que são verificadas e instituições diferentes discutindo antecipadamente como atuar caso determinados cenários se confirmem.

Isso não necessariamente significa que todos os problemas estarão resolvidos quando o evento chegar. Longe disso. Significa apenas que a preparação começa a ocupar um espaço que antes era quase todo destinado à resposta.

Isso é um aprendizado importante dos eventos que enfrentamos nos últimos anos.

Cada enchente, estiagem, onda de calor ou evento severo acaba expondo alguma fragilidade. Algumas são estruturais e levam anos para serem corrigidas. Outras são bem mais simples e estão relacionadas à comunicação, procedimentos, responsabilidades ou à própria forma como as informações circulam entre as instituições.

É por isso que vejo com bons olhos a transformação dessas experiências em procedimentos permanentes. Aquilo que foi criado para responder a uma situação excepcional pode, depois de testado e ajustado, permanecer incorporado à rotina.

E aqui está o ponto central desse raciocínio.

Quando falo que esses procedimentos podem se tornar o “novo normal”, quero dizer que quanto mais preparada estiver uma instituição, menos extraordinária precisa ser sua resposta quando alguma coisa acontecer.

A existência de monitoramento permanente, protocolos previamente definidos, troca de informações entre órgãos e planejamento baseado em cenários tende a diminuir aquela necessidade de começar tudo do zero cada vez que surge um novo alerta.

A própria evolução das ferramentas de previsão ajuda bastante nesse processo. Hoje temos acesso a informações meteorológicas, hidrológicas e climáticas em uma velocidade e numa escala que simplesmente não existiam algumas décadas atrás. O desafio passa a saber o que fazer com a informação.

E isso envolve uma mudança de cultura.

Porque preparar-se para algo que ainda não aconteceu exige justificar ações com base em probabilidade e não em certeza. Algumas vezes o cenário previsto não vai se confirmar. Em outras, o impacto será menor do que o esperado.

Essa é uma discussão que provavelmente teremos cada vez mais.

Até onde devemos nos preparar para um cenário incerto?

Quanto antecipar?

Quando mobilizar?

Que nível de risco é aceitável?

Não existem respostas iguais para todas as instituições. Mas me parece cada vez menos razoável que a ausência de certeza seja utilizada como justificativa para a ausência de preparação.

O El Niño de 2026/2027 ainda tem muita história pela frente. As previsões serão atualizadas, a intensidade do fenômeno poderá variar e seus efeitos dependerão de uma série de fatores que só conheceremos com maior precisão conforme os próximos meses avançarem.

Mas uma mudança já pode ser observada antes mesmo de sabermos exatamente quais serão seus impactos.

Estamos nos preparando antes.

Esse é um dos sinais mais claros de como a relação das instituições com os eventos extremos está mudando.

E se esses eventos continuarão fazendo parte da nossa realidade, provavelmente a preparação para eles também terá que fazer.

Gustavo Tonon

Referências

WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). Global Seasonal Climate Update for August–September–October 2026. Geneva: WMO, 31 jul. 2026.

WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). Strong El Niño expected to intensify as much of the world faces above normal temperatures and major changes in rainfall patterns. Geneva: WMO, 31 jul. 2026.

SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil. Nota Meteorológica SDC/SC 11/06 – NOAA confirma o início do fenômeno El Niño. Florianópolis: SDC/SC, 11 jun. 2026.

SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil. Defesa Civil de Santa Catarina lança página especial com informações e orientações sobre o fenômeno El Niño. Florianópolis: SDC/SC, 16 jun. 2026.

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