O risco que vira rotina: quando a exposição deixa de ser percebida
Nesse post trarei uma discussão mais técnica e menos reflexiva. Em atividades operacionais, especialmente aquelas que envolvem execução contínua e repetitiva, existe um fenômeno que nem sempre recebe a devida atenção nas análises de segurança: a gradual perda da percepção de risco associada à familiaridade com a tarefa.
Não se trata de desconhecimento técnico, ausência de norma ou falha evidente de procedimento. Em muitos casos, os profissionais envolvidos conhecem os riscos, foram treinados e têm experiência suficiente para executar a atividade. Ainda assim, determinados desvios passam a ocorrer de forma recorrente, sem que sejam percebidos como um problema.
Esse processo é sutil e, justamente por isso, relevante.
Ao longo do tempo, pequenas adaptações operacionais, muitas vezes justificadas por ganho de tempo, facilidade de execução ou adequação às condições reais de campo, tendem a se consolidar. O que inicialmente seria uma exceção passa a se repetir, e a repetição, por sua vez, confere uma aparência de normalidade àquela prática.
Do ponto de vista da segurança, esse é um ponto crítico. Como já discutido por Reason (1997), sistemas complexos raramente falham por um único fator isolado, ao contrário, os acidentes costumam ser resultado de uma combinação de condições latentes e falhas ativas que se alinham ao longo do tempo. Nesse contexto, a normalização de desvios operacionais atua justamente como uma dessas condições latentes, criando um ambiente propício à ocorrência de eventos indesejados.
Um aspecto que contribui significativamente para esse processo é a ausência de consequência imediata. Diferentemente de falhas mecânicas abruptas, muitos desvios comportamentais ou operacionais não geram impacto perceptível no curto prazo. A atividade é executada, o resultado é alcançado e, aparentemente, não há prejuízo.
Essa repetição sem consequência reforça a percepção de que a prática é aceitável.
Do ponto de vista comportamental, esse fenômeno pode ser associado ao conceito de habituação, no qual a exposição contínua a um estímulo leva à redução da resposta a ele (KANDEL et al., 2014). Aplicado ao contexto da segurança do trabalho, isso significa que a exposição recorrente a uma condição de risco tende a reduzir a sensibilidade do indivíduo em relação a ela, tornando-a progressivamente menos perceptível.
Além disso, há um componente importante relacionado à experiência profissional. A experiência, por um lado, é fundamental para a execução segura de atividades, pois permite antecipar problemas, otimizar processos e lidar com variáveis não previstas. Por outro, quando não acompanhada de uma postura crítica, pode contribuir para a consolidação de práticas que se afastam das condições originalmente consideradas seguras.
Isso ocorre porque a validação da prática passa a se basear na ausência de eventos anteriores, e não na análise técnica da condição atual. Em outras palavras, o fato de “nunca ter acontecido nada” passa a ser interpretado como evidência de segurança, o que, sob o ponto de vista da gestão de riscos, é uma premissa frágil.
De acordo com Hollnagel (2014), sistemas sociotécnicos operam constantemente em um estado de ajuste, no qual os operadores adaptam suas ações às condições reais de trabalho. Essas adaptações são inevitáveis e, em muitos casos, necessárias para garantir a continuidade da operação. No entanto, quando não são acompanhadas por mecanismos de monitoramento e reflexão, podem levar a um afastamento progressivo entre o trabalho prescrito e o trabalho real.
Esse distanciamento, quando não percebido, compromete a eficácia das medidas de controle originalmente estabelecidas.
Outro ponto relevante é a limitação dos instrumentos formais de controle, como checklists e procedimentos padronizados. Embora essenciais para a organização das atividades e para a definição de critérios mínimos de segurança, esses instrumentos não são, por si só, suficientes para garantir a identificação de riscos em ambientes dinâmicos.
Isso porque tendem a capturar condições previstas, mas não necessariamente aquelas que emergem da prática cotidiana.
Nesse sentido, a segurança do trabalho não pode ser tratada exclusivamente como um sistema de conformidade. Ela exige, além do atendimento a requisitos normativos, a capacidade contínua de leitura crítica do ambiente operacional.
Essa leitura passa, inevitavelmente, pela percepção do que deixou de ser percebido.
Identificar situações em que o risco foi incorporado à rotina demanda um esforço consciente de revisão de práticas, questionamento de hábitos e reavaliação de condições consideradas “normais”. Trata-se de um processo que envolve principalmente cultura organizacional e postura profissional.
Do ponto de vista da prevenção, isso implica reconhecer que nem todos os riscos se apresentam de forma evidente. Alguns são explícitos e facilmente identificáveis, outros, no entanto, são silenciosos e se manifestam justamente pela ausência de questionamento.
Essa reflexão é particularmente relevante em contextos operacionais nos quais a repetição de tarefas é elevada e as condições de trabalho apresentam variabilidade. Nesses ambientes, a tendência à automatização de comportamentos é natural, mas precisa ser constantemente equilibrada por mecanismos que estimulem a atenção e a análise crítica.
Em última instância, a gestão de riscos não se resume à eliminação de perigos ou à implementação de controles. Ela envolve, sobretudo, a manutenção da capacidade de perceber o risco, mesmo quando ele já faz parte da rotina.
Referências
HOLLNAGEL, Erik. Safety-I and Safety-II: the past and future of safety management. Farnham: Ashgate, 2014.
KANDEL, Eric R. et al. Principles of Neural Science. 5. ed. New York: McGraw-Hill, 2014.
REASON, James. Managing the Risks of Organizational Accidents. Aldershot: Ashgate, 1997.
