A inteligência artificial não vai substituir engenheiros. Mas pode mudar o que significa ser um.
Nos últimos meses ficou praticamente impossível escapar do assunto inteligência artificial. Em algum momento da conversa aparece a pergunta que já virou quase um roteiro obrigatório: será que essa tecnologia vai substituir profissionais?
Quando o assunto chega na engenharia, normalmente percebo duas reações.
A primeira é uma espécie de entusiasmo exagerado, como se estivéssemos próximos de um cenário onde projetos, análises e decisões passariam a acontecer de forma praticamente automática.
A segunda costuma vir quase como um mecanismo de defesa: “engenharia sempre vai precisar de pessoas”.
Acredito as duas respostas sejam rápidas demais para um tema que merece um pouco mais de calma.
Porque, olhando com um pouco mais de distância, não me parece que estamos vivendo a primeira tecnologia capaz de mudar profundamente a forma como engenheiros trabalham.
A engenharia sempre absorveu transformações tecnológicas.
Quem está há mais tempo no mercado provavelmente já acompanhou mudanças que, em determinado momento, também pareceram disruptivas (e não, antes que alguém interprete errado, ainda não estou falando da minha geração).
O cálculo computacional reduziu etapas inteiras que antes exigiam horas de desenvolvimento manual. O desenho técnico deixou pranchetas e migrou para ambientes digitais. Modelagem, automação, sensores e integração de dados mudaram completamente a forma como projetamos, operamos e tomamos decisões.
Hoje parece natural. Mas em algum momento essas mudanças também provocaram desconforto.
O interessante é observar que poucas dessas transformações eliminaram a necessidade de engenheiros. O que elas fizeram foi mudar aquilo que tinha valor.
Se antes grande parte do diferencial estava na capacidade operacional de executar tarefas técnicas, aos poucos o valor foi migrando para interpretação, tomada de decisão, integração de informações e visão sistêmica.
Provavelmente seja justamente por isso que a inteligência artificial esteja gerando uma sensação diferente pelo fato que ela começa a atuar em algo que até pouco tempo atrás parecia muito associado ao trabalho intelectual: organizar informação, estruturar ideias, produzir alternativas, sintetizar conteúdos e acelerar parte do raciocínio operacional.
Naturalmente isso gera desconforto.
Mas talvez exista uma pergunta mais interessante do que “quem será substituído”.
Talvez valha perguntar: o que continua tendo valor quando produzir informação deixa de ser a parte mais difícil do trabalho?
Recentemente comecei a perceber algo curioso.
Atividades que antes exigiam bastante tempo, organizar referências, estruturar uma ideia inicial, comparar abordagens ou construir um primeiro rascunho, passaram a acontecer muito mais rápido.
Isso não eliminou o trabalho.
Na verdade, mudou o ponto onde o esforço acontece.
Menos energia para começar do zero.
Mais energia para selecionar, revisar, discordar, aprofundar e decidir.
E tisso explica porque ainda tenho dificuldade de acreditar que a tecnologia vá substituir completamente profissões como engenharia.
Porque engenharia nunca foi simplesmente produzir respostas.
Grande parte do trabalho está em entender quais perguntas precisam ser feitas.
Um modelo pode gerar uma alternativa tecnicamente plausível. Mas alguém ainda precisa decidir se ela faz sentido para aquele cenário específico.
Brynjolfsson e McAfee (2014), ao analisarem os impactos das tecnologias digitais no trabalho, defendem justamente que grandes revoluções tecnológicas tendem menos a eliminar ocupações inteiras e mais a reorganizar atividades dentro delas. Mais recentemente, Brynjolfsson (2022) amplia essa discussão ao sugerir que os maiores ganhos da inteligência artificial podem surgir quando ela aumenta capacidades humanas, e não apenas quando tenta substituí-las.
Esse raciocínio me parece particularmente interessante para engenharia.
Porque provavelmente o profissional que mais gera valor nos próximos anos não seja aquele que ignora essas ferramentas nem aquele que terceiriza completamente o pensamento para elas.
Provavelmente seja quem consegue combinar velocidade tecnológica com julgamento técnico.
Existe ainda uma ironia interessante nisso tudo.
Eu trouxe a provocação, conduzi os argumentos, descartei caminhos que não faziam sentido e fui direcionando o texto para o lugar onde eu queria chegar. A ferramenta acelerou parte da execução.
Pensando bem, talvez isso seja uma representação prática do próprio ponto que estou tentando defender.
A tecnologia não reduziu o valor da análise, ela reduziu parte do esforço operacional para abrir mais espaço para interpretação, senso crítico e tomada de decisão.
Se isso é um indicativo do que vem pela frente, o debate não deve permear sobre substituição e sim sobre adaptação.
Referências
BRYNJOLFSSON, Erik; MCAFEE, Andrew. The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies. New York: W. W. Norton & Company, 2014.
BRYNJOLFSSON, Erik. The Turing Trap: The Promise & Peril of Human-Like Artificial Intelligence. 2022.
