Inteligência Artificial e Wearables: quando a engenharia encontra o futuro da segurança

Inteligência Artificial e Wearables: quando a engenharia encontra o futuro da segurança

Algumas coisas que aprendi nesses anos na segurança do trabalho é que estatística, checklists e normas são fundamentais, mas sozinhos não dão conta de tudo. Analisa-se riscos, mapeia-se perigos, faz-se treinamento, entrega-se EPI… e mesmo assim, acidentes continuam acontecendo. É aí que entra a tecnologia para mudar o jogo. Estou falando de coisas bem reais, Inteligência Artificial e dispositivos vestíveis, os famosos wearables.

Estamos falando de um capacete que mede temperatura e ruído em tempo real, uma pulseira que monitora sinais vitais do trabalhador ou um colete que detecta postura inadequada antes de virar uma lesão na coluna. Tudo isso já existe. A diferença é que agora esses dados não ficam “soltos”: eles são processados por algoritmos de IA capazes de identificar padrões de risco e avisar quando algo não está normal. É como se tivéssemos um profissional de segurança invisível acompanhando cada colaborador, 24 horas por dia, sem descanso.

O impacto disso é gigantesco. Em vez de esperar um acidente acontecer para investigar, podemos agir antes. É a tal prevenção preditiva, a máquina percebe sinais que o olho humano não enxerga. Para quem gosta de números, isso pode significar uma queda absurda nos afastamentos e nos custos com acidentes. Só para dar uma ideia, entre 2012 e 2022, os afastamentos custaram ao INSS cerca de R$ 120 bilhões. Em 2024, foram mais de R$ 12 bilhões só em benefícios ligados a acidentes de trabalho (BRASIL, 2025). Imagine quanto disso poderia ser evitado se tivéssemos usado tecnologia para antecipar os riscos.

Mas também não exite milagres. Wearables e IA não resolvem sozinhos. Primeiro, porque sensor sem calibração é igual a régua torta, não serve. Segundo, porque sem cultura de segurança, qualquer inovação vira enfeite caro. E terceiro, porque precisamos falar de ética. Até onde monitorar o trabalhador 100% do tempo respeita sua privacidade? O dado vai ser usado para cuidar ou para vigiar? Esse é um debate que não dá para varrer para baixo do tapete.

Outra coisa, tecnologia nenhuma substitui o olhar humano. O que ela faz é ampliar nossa capacidade de enxergar. A função não é virar “operador de software”, mas usar a IA como extensão do raciocínio técnico que a gente já tem.

A grande questão é, estamos preparados para essa virada? Porque, no fim das contas, segurança do trabalho continua sendo sobre gente. A tecnologia só faz sentido se for para proteger vidas e melhorar a rotina de quem está lá na ponta.

Gustavo Tonon

Referências

BRASIL. Ministério Público do Trabalho; Organização Internacional do Trabalho. Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho: uma década de observação. Brasília: MPT/OIT, 2025. Disponível em: https://observatoriosst.mpt.mp.br/. Acesso em: 2 set. 2025.

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