Quando o trabalho técnico precisa chegar antes do evento

Quando o trabalho técnico precisa chegar antes do evento

Nos últimos dias concluímos uma perícia que, pelo menos até aqui, foi uma das mais desafiadoras que já participei.

Por uma questão de sigilo, obviamente não vou entrar em detalhes sobre o processo, local, pessoas envolvidas ou apresentar qualquer imagem que permita algum tipo de identificação. Também não é essa a intenção deste texto. O que achei interessante compartilhar foi um pouco da experiência e, principalmente, uma relação que acabei fazendo com o último artigo que publiquei aqui no blog, sobre eventos extremos e a forma como as instituições estão começando a se preparar para eles.

Nesse trabalho em específico havia uma preocupação importante com o tempo.

O Juízo precisava de informações técnicas para subsidiar uma decisão e, ao mesmo tempo, existia a preocupação com a aproximação de um período em que eventos de chuva mais severos poderiam ocorrer. O cenário climático relacionado ao El Niño fazia parte desse contexto de planejamento preventivo, embora, tecnicamente, não pudesse ser utilizado de forma isolada para determinar uma condição de risco.

Esse cuidado parece óbvio quando colocado no papel, mas na prática não é tão simples.

Quando trabalhamos com risco, principalmente envolvendo pessoas, existe uma responsabilidade muito grande em separar aquilo que efetivamente foi constatado daquilo que é uma possibilidade de evolução. Não dá para minimizar uma situação que merece atenção, da mesma forma que não dá para transformar uma possibilidade em uma certeza simplesmente porque existe uma previsão de chuva mais intensa pela frente.

Talvez essa tenha sido uma das principais dificuldades do trabalho.

A perícia também não foi realizada somente por mim. As análises foram desenvolvidas por uma equipe multidisciplinar e, nesse caso, isso foi fundamental. Havia questões relacionadas às características do terreno, drenagem, intervenções existentes, ocupação, vulnerabilidade e processos que poderiam apresentar comportamentos diferentes dependendo das condições encontradas.

Algumas vezes uma observação feita em campo levava a uma nova consulta aos documentos. Em outras, alguma informação encontrada nos autos fazia com que voltássemos às fotografias ou aos levantamentos para verificar se aquilo tinha correspondência com o que havíamos observado. Houve também situações em que uma hipótese inicialmente considerada precisava simplesmente ser descartada porque as evidências disponíveis não eram suficientes para sustentá-la.

Acho que essa é uma parte da perícia que nem sempre aparece quando vemos somente o produto final.

O laudo pronto é organizado. Tem capítulos, figuras, mapas, metodologia, respostas aos quesitos e conclusões. Só que o caminho até chegar naquela organização é bem menos linear.

Nesse caso, foi necessário integrar informações documentais, cartográficas e de campo e, depois, avaliar individualmente as diferentes condições encontradas. A metodologia utilizada também exigiu separar conceitos que muitas vezes acabam sendo tratados como se fossem a mesma coisa: perigo, vulnerabilidade e risco.

A vistoria trouxe outra particularidade. Parte do trabalho de campo aconteceu sob chuva.

Do ponto de vista operacional isso evidentemente dificulta bastante. Acesso, deslocamento, registro fotográfico e a própria permanência em determinados locais precisam ser realizados com mais cuidado.

Depois do campo veio, para mim, a etapa mais difícil.

Concluir.

E talvez quem já tenha trabalhado com perícia entenda bem isso.

Encontrar uma feição, fazer uma medição ou identificar determinada condição é uma coisa. Transformar todas essas observações em uma conclusão técnica que poderá ser utilizada dentro de um processo judicial é outra.

Ainda mais quando existem pessoas envolvidas.

Em alguns momentos precisamos voltar várias vezes ao mesmo ponto do laudo para verificar se a redação realmente dizia aquilo que as evidências permitiam dizer. Nem mais, nem menos.

Também tivemos o cuidado de não tratar a chuva ou o próprio El Niño como uma justificativa automática para qualquer conclusão. Eventos pluviométricos intensos ou prolongados podem agravar processos existentes, aumentar o umedecimento do terreno e modificar determinadas condições, mas isso precisa ser analisado juntamente com a resposta efetivamente observada no local. Foi dessa forma que a questão foi tratada tecnicamente no trabalho.

Confesso que foram dias cansativos. Mas foi também um trabalho que ensinou bastante.

E foi justamente perto da conclusão que percebi a coincidência com o artigo que havia publicado alguns dias antes.

Naquele texto escrevi sobre como a preparação para eventos extremos tende a fazer cada vez mais parte da rotina das instituições. Falei sobre a importância de trabalhar com previsão, cenários e incerteza antes que o evento efetivamente aconteça.

Pouco depois, estava participando de uma perícia em que, guardadas as devidas proporções, precisávamos fazer justamente isso.

O trabalho técnico precisava chegar antes da chuva.

Não tínhamos como afirmar exatamente o que aconteceria nas semanas seguintes. Nem era esse o papel da perícia. O que podíamos fazer era avaliar as condições existentes, identificar aquilo que efetivamente estava presente, compreender quais situações poderiam evoluir e apresentar isso da forma mais clara possível para quem precisaria tomar uma decisão.

Talvez essa tenha sido a principal reflexão que ficou para mim depois de entregar o laudo.

Muitas perícias começam depois que alguma coisa já aconteceu. Existe um dano, um acidente, uma intervenção ou uma situação passada que precisa ser tecnicamente esclarecida.

Outras, porém, acabam tendo também um componente preventivo.

E essa experiência me mostrou um pouco mais dessa outra face da atuação pericial.

Sem tentar prever o futuro e sem transformar incerteza em certeza, o trabalho técnico pode ajudar a organizar as informações disponíveis para que uma decisão seja tomada com um pouco mais de segurança antes que as condições mudem.

No final, acho que é uma continuação bastante prática daquilo que escrevi no último artigo.

Se estamos aprendendo que as instituições precisam se preparar antes dos eventos extremos, nós, profissionais técnicos, também precisamos estar preparados para fornecer boas informações quando elas forem necessárias.

Às vezes, inclusive, com pouco tempo, muitas dúvidas e uma responsabilidade considerável sobre cada conclusão que colocamos no papel.

Foi trabalhoso. Aprendi bastante.

E certamente foi uma daquelas perícias que vou lembrar por um bom tempo.

Gustavo Tonon

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