A ISO/PAS 45007:2026 e um novo olhar sobre os riscos ocupacionais

A ISO/PAS 45007:2026 e um novo olhar sobre os riscos ocupacionais

Recentemente a International Organization for Standardization (ISO) publicou a ISO/PAS 45007:2026, um documento que, embora tenha recebido pouca atenção fora dos círculos da Segurança e Saúde no Trabalho (SST), representa uma mudança importante na forma como os riscos ocupacionais passam a ser compreendidos.

A primeira observação é que a ISO/PAS 45007 não substitui a ISO 45001 e também não estabelece novos requisitos certificáveis. Trata-se de uma Publicly Available Specification (PAS), ou seja, um documento de orientação desenvolvido para responder rapidamente a um tema emergente enquanto uma norma internacional mais consolidada ainda está em desenvolvimento (ISO, 2026).

Vale lembrar que uma PAS possui um papel bastante específico dentro da estrutura da ISO. Diferentemente das normas internacionais tradicionais, ela é publicada quando existe a necessidade de fornecer diretrizes sobre um assunto cuja relevância prática já está consolidada, mas que ainda demanda amadurecimento técnico e consenso internacional para se transformar em uma norma definitiva. Em outras palavras, a PAS funciona como um mecanismo de resposta rápida da ISO frente a novos desafios que começam a impactar organizações em escala global.

No caso da ISO/PAS 45007, esse desafio é bastante evidente.

Vale destacar também que a publicação da PAS está alinhada ao movimento iniciado pela Emenda 1 da ISO 45001:2024, que passou a exigir que as organizações avaliem se as mudanças climáticas representam uma questão relevante para o contexto do seu Sistema de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho. A ISO/PAS 45007 surge justamente para orientar como esses aspectos podem ser incorporados ao gerenciamento dos riscos ocupacionais.

O aspecto mais interessante da publicação é reconhecer oficialmente que as mudanças climáticas deixam de ser tratadas apenas como uma preocupação ambiental e passam a integrar os processos de identificação de perigos e avaliação de riscos ocupacionais.

Na prática, isso significa que fatores como ondas de calor, enchentes, incêndios florestais, degradação da qualidade do ar, aumento da radiação solar e até alterações na distribuição de vetores biológicos devem ser considerados durante a identificação e avaliação dos perigos presentes no ambiente de trabalho (ISO, 2026).

Embora muitos desses eventos já façam parte da rotina de diversos setores produtivos, a novidade está em reconhecê-los formalmente como elementos integrantes da gestão de SST. Até então, era comum que esses fatores fossem tratados apenas sob a ótica da gestão ambiental, da continuidade dos negócios ou dos planos de emergência. A ISO/PAS 45007 aproxima essas discussões da rotina da Segurança do Trabalho e reforça que seus efeitos podem comprometer diretamente a saúde, a segurança e as condições de trabalho.

Mas talvez a principal contribuição da PAS esteja em outro ponto.

Ela chama atenção para o fato de que os próprios processos de adaptação às mudanças climáticas também podem gerar novos riscos.

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da publicação. Existe uma tendência natural de imaginar que medidas de adaptação sempre reduzem riscos. Entretanto, a realidade costuma ser mais complexa. A adoção de novas tecnologias, alterações de jornada para evitar exposição ao calor extremo, mudanças na infraestrutura ou a implantação de medidas voltadas ao aumento da resiliência operacional podem modificar significativamente o perfil de riscos já existente. Isso significa que adaptar processos também exige revisar continuamente a matriz de riscos ocupacionais e seus respectivos controles.

Esse entendimento amplia a forma tradicional de enxergar a Segurança do Trabalho.

Durante muito tempo, a maior parte das análises de risco concentrou esforços nos perigos existentes dentro do ambiente operacional: máquinas, equipamentos, agentes físicos, químicos, biológicos, ergonomia e comportamento humano. A ISO/PAS 45007 propõe que fatores externos, especialmente aqueles relacionados ao clima, passem a integrar formalmente os processos de identificação de perigos e avaliação de riscos ocupacionais.

Para organizações que já possuem um Sistema de Gestão baseado na ISO 45001, a estrutura permanece praticamente a mesma. O ciclo de melhoria contínua (PDCA) continua sendo aplicado normalmente. O que muda é o conteúdo da identificação e avaliação de riscos, que passa a incorporar variáveis climáticas capazes de afetar diretamente a saúde, a segurança e as condições de trabalho.

Na prática, essa abordagem possui aplicações bastante claras.

Na construção civil, por exemplo, eventos de calor extremo podem exigir revisão das jornadas, ampliação das pausas para recuperação térmica, novas estratégias de hidratação e monitoramento das condições ambientais. No setor de saneamento, equipes responsáveis pela operação e manutenção de redes, elevatórias e estações de tratamento frequentemente executam atividades em campo sujeitas a enchentes, tempestades e alterações das condições ambientais. Na agricultura, a exposição prolongada ao calor intenso e à radiação solar já representa um dos principais desafios relacionados à saúde ocupacional. Em setores como energia, logística e infraestrutura, eventos climáticos extremos também podem modificar completamente as condições para execução segura das atividades.

Essa preocupação não está restrita à ISO.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em seu relatório Ensuring Safety and Health at Work in a Changing Climate (2024), estima que mais de 70% da força de trabalho mundial, aproximadamente 2,4 bilhões de trabalhadores, esteja potencialmente exposta a pelo menos um risco ocupacional relacionado às mudanças climáticas, incluindo calor excessivo, radiação ultravioleta, poluição atmosférica, doenças transmitidas por vetores e eventos climáticos extremos (ILO, 2024). Esses números demonstram que a publicação da ISO/PAS 45007 não representa uma iniciativa isolada, mas faz parte de um movimento internacional voltado à atualização das práticas de gestão de SST diante das transformações ambientais observadas nas últimas décadas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também reconhece as mudanças climáticas como uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI, destacando seus impactos sobre a exposição ao calor extremo, a qualidade do ar, a segurança alimentar e a ocorrência de doenças relacionadas ao clima (WHO, 2023). Embora a atuação da OMS esteja voltada à saúde pública de maneira ampla, seus apontamentos reforçam a importância de incorporar essas variáveis também à gestão da saúde ocupacional.

Na minha percepção, essa é uma evolução bastante natural da Segurança do Trabalho.

Historicamente, a gestão de riscos concentrou esforços naquilo que acontecia dentro dos limites físicos das organizações. A publicação da ISO/PAS 45007 amplia esse olhar ao orientar que fatores externos relacionados ao clima sejam incorporados aos processos de gestão de riscos ocupacionais. Isso não significa substituir os controles tradicionais, mas reconhecer que o ambiente onde o trabalho acontece está mudando e que essas mudanças também precisam ser gerenciadas.

Independentemente de uma futura evolução da PAS para uma norma internacional definitiva, a mensagem parece bastante clara: os riscos ocupacionais estão se tornando mais dinâmicos, mais interdependentes e cada vez mais influenciados pelas condições ambientais. Para profissionais de Segurança do Trabalho, engenheiros e gestores, incorporar essa visão deixa de ser apenas uma tendência internacional e passa a representar uma oportunidade de tornar os sistemas de gestão mais preparados para os desafios que já fazem parte da realidade de muitas organizações.

Gustavo Tonon

Referências

INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO). Ensuring safety and health at work in a changing climate. Geneva: ILO, 2024.

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION (ISO). ISO/PAS 45007:2026 – Occupational health and safety management — Risks arising from climate change and climate change action — Guidance for organizations. Geneva: ISO, 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Climate change and health. Geneva: WHO, 2023.

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