O procedimento é perfeito. Até encontrar a realidade.

O procedimento é perfeito. Até encontrar a realidade.

Existe uma imagem muito comum da engenharia como uma área baseada em precisão absoluta. Fluxogramas organizados, etapas bem definidas, processos previsíveis e decisões tomadas a partir de lógica técnica. E, de fato, parte da engenharia consiste justamente dessa tentativa de reduzir incertezas. A questão é que o mundo real raramente colabora integralmente com essa expectativa.

Quem trabalha em campo percebe isso cedo.

Percebe-se uma diferença silenciosa entre o sistema desenhado e o sistema vivido. Ela aparece quando a obra ou operacional precisa continuar apesar da chuva, da falha da bomba, do imprevisto.

E mesmo quando o empecilho surge o sistema ainda continua funcionando.

Não exatamente porque o procedimento conseguiu prever cada detalhe. Mas porque alguém, em algum ponto da operação, interpretou cenário, reorganizou prioridades, ajustou execução e tomou pequenas decisões que não estavam completamente descritas no planejamento original.

Esse é um aspecto pouco discutido fora do ambiente operacional, boa parte da estabilidade dos sistemas depende da capacidade humana de adaptação.

Existe uma tendência relativamente comum de imaginar que ambientes técnicos funcionam como estruturas rígidas. Como se processos operacionais fossem executados exatamente da mesma maneira todos os dias. Mas basta acompanhar qualquer atividade prática por tempo suficiente para perceber que existe uma espécie de negociação contínua acontecendo entre planejamento e realidade.

O operador adapta a sequência da atividade porque percebe uma limitação não prevista. A equipe reorganiza a execução porque o cenário mudou ao longo do dia. O campo cria pequenas compensações o tempo inteiro para conseguir manter a operação viável.

Curiosamente, essas adaptações quase nunca aparecem nos procedimentos. Mas aparecem no funcionamento real do sistema.

Jens Rasmussen (1997), ao estudar sistemas complexos, já discutia como ambientes organizacionais operam constantemente pressionados por produtividade, eficiência e restrições operacionais. Nesse contexto, pessoas acabam ajustando suas ações continuamente para conseguir manter o sistema funcional dentro das condições disponíveis.

Talvez por isso algumas análises técnicas produzam explicações tão desconectadas da prática. Depois que um problema acontece, existe uma tendência natural de reconstruir o evento como se tudo fosse linear, previsível e facilmente evitável. O procedimento parece óbvio quando analisado retrospectivamente. Mas a operação raramente é vivida dessa forma enquanto está acontecendo.

E isso não significa defender improvisação descontrolada ou reduzir a importância dos controles operacionais. Significa apenas reconhecer que sistemas reais possuem variabilidade, desgaste, limitação e comportamento humano envolvidos no processo.

Erik Hollnagel (2014), ao propor o conceito de Safety-II, traz uma reflexão interessante justamente sobre isso, sistemas não permanecem estáveis apenas porque existem normas ou barreiras formais de controle. Na grande maioria das vezes eles permanecem estáveis porque as pessoas conseguem perceber desvios, interpretar sinais e adaptar decisões antes que pequenas falhas se transformem em problemas maiores.

Talvez exista um certo desconforto em admitir isso porque quebra um pouco a ideia de engenharia como ambiente totalmente previsível. Mas operações reais possuem dinâmica própria. E talvez maturidade técnica tenha menos relação com a expectativa de eliminar completamente a variabilidade e mais com a capacidade de compreender como ela realmente se manifesta no campo.

No fim, procedimentos continuam sendo fundamentais. Eles organizam processos, estabelecem critérios mínimos e criam referências importantes para execução segura das atividades. Mas engenharia aplicada talvez esteja menos na ilusão de controle absoluto e mais na capacidade de entender como sistemas realmente se comportam quando encontram a realidade.

Gustavo Tonon

Referências

HOLLNAGEL, Erik. Safety-I and Safety-II: the past and future of safety management. Farnham, UK: Ashgate Publishing, 2014.

RASMUSSEN, Jens. Risk management in a dynamic society: a modelling problem. Safety Science, v. 27, n. 2–3, p. 183–213, 1997.

Está gostando do conteúdo? Compartilhe

Deixe Seu Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *