Setores mais vulneráveis e perfil dos acidentes de trabalho no Brasil

Setores mais vulneráveis e perfil dos acidentes de trabalho no Brasil

A segurança e saúde no trabalho (SST) no Brasil ainda enfrentam desafios significativos, mesmo após décadas de avanços normativos, tecnológicos e organizacionais. Dados recentes mostram que, embora as empresas estejam cada vez mais estruturadas em seus programas de prevenção, os números de acidentes permanecem elevados. Essa realidade revela a necessidade de repensar estratégias de prevenção e fiscalização em setores específicos da economia.

Em termos comparativos internacionais, o Brasil permanece entre os países com maior número absoluto de acidentes de trabalho. Segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab, MPT/OIT), entre 2012 e 2022, o país registrou mais de 6 milhões de notificações, resultando em mais de 25 mil mortes.

Outro ponto de destaque é a distribuição geográfica das ocorrências. Os estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná historicamente concentram os maiores números de registros, refletindo tanto o volume de trabalhadores formais quanto a diversidade dos setores econômicos presentes nessas regiões. Já proporcionalmente ao número de vínculos, estados como Acre, Rondônia e Pará apresentam taxas de incidência mais altas, revelando que os acidentes também acompanham desigualdades regionais e fragilidades locais de fiscalização.

A análise setorial mostra que a construção civil, o transporte e armazenagem e a saúde concentram parte expressiva das ocorrências. A construção civil historicamente responde por grande número de acidentes graves e fatais, devido ao trabalho em altura, escavações e manuseio de equipamentos pesados. A rotatividade elevada e a multiplicidade de contratados dificultam a padronização de práticas seguras.

No transporte e armazenagem, os riscos estão associados a jornadas extensas, pressão por produtividade e exposição constante a riscos mecânicos e viários. Acidentes de trânsito envolvendo veículos de carga permanecem entre as principais causas de afastamentos e mortes.

Já no setor da saúde, os riscos estão ligados à exposição a agentes biológicos, ergonomia e jornadas intensas. Profissionais de enfermagem e técnicos de laboratório seguem expostos a acidentes com materiais perfurocortantes e a distúrbios musculoesqueléticos. A pandemia de COVID-19 evidenciou e intensificou essas vulnerabilidades.

O perfil dos trabalhadores acidentados também merece atenção. Dados do INSS apontam que a faixa etária de 20 a 29 anos concentra o maior número de registros em acidentes típicos e de trajeto (INSS, 2024). Além disso, há predominância masculina: em 2023, cerca de 67% dos acidentes típicos e 59% dos de trajeto envolveram homens (INSS, 2024). Esse recorte reflete a forte presença masculina nos setores mais perigosos, como construção e transporte.

As consequências sociais e econômicas são significativas. Os afastamentos geram impacto direto nos cofres públicos, via concessão de benefícios previdenciários, e para as empresas, na perda de produtividade e qualificação.

Em síntese, a análise dos setores mais vulneráveis mostra que a prevenção de acidentes no Brasil ainda precisa evoluir em diversos aspectos. Apesar dos avanços normativos e da maior conscientização, a combinação de fatores humanos, estruturais e organizacionais continua a colocar em risco a vida e a saúde dos trabalhadores. Uma abordagem mais técnica, específica e proativa é fundamental para reduzir a frequência e a gravidade dos acidentes, promovendo ambientes laborais mais seguros e produtivos.

Gustavo Tonon

Referências

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Ministério do Trabalho e Emprego identifica aumento de acidentes de trabalho no Brasil. Brasília: MTE, 2025a.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Brasil registra maioria dos acidentes de trabalho com afastamentos curtos. Brasília: MTE, 2025b.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. No Brasil, foram registrados 2.888 acidentes fatais em 2023, segundo dados do eSocial. Brasília: MTE, 2024.

INSS. Instituto Nacional do Seguro Social. Anuário Estatístico da Previdência Social – Acidentes de Trabalho 2023. Brasília: INSS, 2024.

SMARTLAB. Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (MPT/OIT). Acidentes de Trabalho no Brasil: estatísticas nacionais. Brasília, 2023.

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