Créditos de carbono sob suspeita: quando a conservação se perde no caminho
Muito se fala sobre os créditos de carbono como solução para as mudanças climáticas. E, em teoria, eles realmente podem ser parte de uma estratégia global eficaz: empresas que emitem gases de efeito estufa podem investir em projetos de conservação ambiental que, por sua vez, absorvem ou evitam emissões. A ideia é simples, mas a execução nem tanto.
Recentemente, uma investigação da agência Reuters (2025) jogou luz sobre um problema: a fragilidade de parte dos projetos de carbono no Brasil, em especial na região amazônica. Segundo a reportagem, diversas iniciativas estavam sob responsabilidade de pessoas e empresas que já haviam sido multadas por desmatamento ilegal. Em alguns casos, os mesmos que degradaram a floresta estavam agora se beneficiando da sua “preservação”, vendendo créditos no mercado voluntário internacional.
Esse tipo de contradição expõe um ponto crítico: o crédito de carbono, quando mal estruturado, pode deixar de ser um mecanismo ambiental legítimo e virar um produto especulativo. E o problema vai além de uma ou outra empresa agindo de má-fé. O que está em jogo é a credibilidade de toda uma cadeia de compensações que, se mal conduzida, enfraquece a confiança no modelo e compromete políticas públicas sérias de redução de emissões.
Como engenheiro, vejo com preocupação o descolamento entre o discurso técnico e a prática operacional em muitos desses projetos. O conceito de adicionalidade, por exemplo, é um dos pilares para validar um crédito: só se pode gerar crédito se for comprovado que o carbono evitado ou sequestrado não teria sido preservado sem aquele projeto. No entanto, se a área já estava protegida por lei, ou se já havia sido degradada antes, onde está a compensação real?
Outro ponto é a rastreabilidade. A cadeia de valor desses projetos precisa ser clara. Quem são os responsáveis técnicos? Que tipo de auditoria foi feita? Quais métodos de verificação foram aplicados? Houve medição real de biomassa e carbono ou apenas estimativas generalistas? Essas são perguntas básicas, e a ausência de respostas técnicas sólidas já deveria ser um sinal de alerta.
A reportagem mostra ainda que grandes empresas internacionais como Boeing, Delta Airlines e Telefônica , compraram créditos desses projetos. Isso levanta uma questão importante: até que ponto as empresas compradoras têm responsabilidade em verificar a origem dos créditos? A aquisição de créditos com problemas pode configurar greenwashing, e isso não é apenas uma questão reputacional, envolve risco legal e prejuízo para toda a agenda ESG.
No Brasil, temos uma legislação recente que tenta organizar esse cenário. A Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (Lei nº 14.119/2021) é um passo relevante, ainda tímido que precisa de maior estruturação para implantação. É preciso criar mecanismos mais robustos de controle, com exigência de auditorias independentes, registro público dos projetos e responsabilização dos envolvidos em caso de inconsistência técnica ou ambiental.
Há também um papel essencial a ser desempenhado por nós, profissionais técnicos. Profissionais do meio ambiente precisam estar envolvidos desde a concepção até a validação e o monitoramento dos projetos. E isso não é apenas uma oportunidade de atuação profissional, mas uma necessidade para que o sistema funcione com integridade e celeridade que merece.
O crédito de carbono pode ser uma ferramenta poderosa. Mas, para isso, precisa deixar de ser tratado como moeda verde e passar a ser gerido como um instrumento técnico, baseado em dados concretos, avaliações rigorosas e acompanhamento contínuo. A floresta em pé não é apenas paisagem, é cálculo, é responsabilidade, é engenharia.
Referência
REUTERS. Illegal loggers profit from Brazil’s carbon credit projects. 07 jul. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/business/environment/illegal-loggers-profit-brazils-carbon-credit-projects-2025-07-07
