Saúde Mental no Trabalho
Durante dois anos de residência médica em clínica médica, Lara dormia menos de quatro horas por noite. Os plantões eram longos, as cobranças, constantes. Viu pacientes morrerem, enfrentou emergências sem apoio e, ao final de cada dia, ainda precisava estudar para manter o desempenho exigido. Quando finalmente concluiu a residência, o que era para ser um momento de alívio e recomeço coincidiu com o início da pandemia da COVID-19.
Com a escassez de profissionais da saúde, o alívio nunca veio. Lara seguiu atuando em hospitais superlotados, com equipes reduzidas e sob uma carga emocional esmagadora. Medo, exaustão e a sensação de impotência passaram a fazer parte da rotina. Ao fim de tudo, com o corpo em pé, mas a mente em ruínas, veio o diagnóstico: síndrome de burnout.
E o pior de tudo? Lara trabalhava sob um contrato de pessoa jurídica, sem vínculo empregatício, uma realidade cada vez mais comum na área médica no Brasil.
Essa condição, além de expor o profissional à sobrecarga, muitas vezes o priva de direitos básicos, como afastamento remunerado, apoio psicológico institucional e amparo previdenciário, o que também é, sim, uma questão de segurança do trabalho.
A história de Lara é inspirada em uma vivência real e representa milhares de profissionais que enfrentaram (e ainda enfrentam) jornadas desumanas e ambientes de trabalho que silenciam o sofrimento emocional.
A Epidemia Silenciosa nas Empresas
Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais, segundo dados do INSS, um salto de 67% em relação a 2023. Os maiores responsáveis? Ansiedade e depressão, que juntos representaram mais da metade dos casos.
Enquanto isso, uma pesquisa da Vidalink com mais de 10 mil trabalhadores mostrou que 31% dos brasileiros não fazem absolutamente nada para cuidar da própria saúde mental. O dado é ainda mais preocupante quando lembramos que o Brasil está entre os países com maior prevalência de burnout, atingindo até 30% da força de trabalho em alguns setores.
No ambiente de trabalho, esses números não são apenas estatísticas. Eles se traduzem em atrasos, erros, acidentes, afastamentos e sofrimento humano.
Doença Mental É Assunto de Segurança do Trabalho?
Sim. E mais do que isso: é responsabilidade direta da empresa.
Desde maio de 2025, a nova redação da NR-1 passou a exigir que os riscos psicossociais também sejam considerados no gerenciamento de riscos ocupacionais. Isso inclui:
- Pressão excessiva por metas;
- Assédio moral e sexual;
- Falta de reconhecimento;
- Jornadas exaustivas;
- Clima organizacional tóxico.
A empresa que negligência esses fatores podem não apenas comprometer a saúde de seus colaboradores, mas também responder judicialmente por omissão ou negligência.
Além disso, a ISO 45003, norma internacional publicada em 2021, oferece um guia completo para a gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Ela recomenda que as organizações:
- Identifiquem fontes de estresse ocupacional;
- Avaliem impactos emocionais das tarefas;
- Implementem medidas preventivas (como apoio psicológico, pausas, treinamentos de liderança empática);
- Realizem monitoramento contínuo do clima e bem-estar dos trabalhadores.
Os Custos do Silêncio
Muitos gestores ainda veem saúde mental como algo “individual” ou “particular”. Mas ignorar esse tema custa caro, financeiramente e eticamente.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente no mundo devido a transtornos como depressão e ansiedade. O impacto na produtividade global ultrapassa US$ 1 trilhão por ano.
No Brasil, esse impacto é sentido em forma de:
- Absenteísmo (faltas frequentes);
- Presenteísmo (funcionários que comparecem, mas não produzem);
- Queda na produtividade;
- Rotatividade elevada;
- Custos com afastamentos e tratamentos.
E Agora, o Que Podemos Fazer?
Se você é gestor, profissional de SST ou apenas alguém atento ao bem-estar coletivo, o primeiro passo é reconhecer: doença mental é uma questão ocupacional.
Não basta uma palestra anual sobre “autoestima”. A prevenção real exige:
- Mapear os riscos psicossociais nos ambientes de trabalho;
- Promover escuta ativa e lideranças empáticas;
- Reduzir jornadas abusivas e práticas tóxicas;
- Criar canais seguros de denúncia e apoio emocional.
E Você? Já Vivenciou Algo Assim? (Eu já!)
Queremos abrir esse espaço para escutar você.
Já passou por um ambiente de trabalho onde a pressão era insustentável?
Conhece alguém que sofreu calado por medo de retaliação?
Vença o seu orgulho, compartilhe nos comentários. Sua experiência pode ajudar a construir ambientes mais humanos e seguros.
Gustavo Tonon
